segunda-feira, 14 de março de 2016

Uma Breve História das Geotecnologias no Brasil

Internacionalmente, a década de 80 representa o momento quando as geotecnologias, principalmente os Sistemas de Informações Geográficas, iniciam um período de acelerado crescimento que dura até os dias de hoje (Goodchild, 1991). De acordo com Câmara e Davis (2000) a introdução do Geoprocessamento, e de outras formas de processamento de dados cartográficos de forma informatizada no Brasil iniciam-se a partir do esforço de divulgação e formação de pessoal feito pelo prof. Jorge Xavier da Silva (UFRJ), no início dos anos 1980. A vinda ao Brasil, em 1982, do Dr. Roger Tomlinson, responsável pela criação do primeiro SIG (o Canadian Geographical Information System), incentivou o aparecimento de vários grupos interessados em desenvolver tecnologia, entre os quais é possível mencionar:

  • UFRJ: O grupo do Laboratório de Geoprocessamento do Departamento de Geografia da UFRJ, sob a orientação do professor Jorge Xavier, desenvolveu o SAGA (Sistema de Análise Geo-Ambiental). O SAGA tem seu forte na capacidade de análise geográfica e vem sendo utilizado com sucesso com veículo de estudos e pesquisas.
  • MaxiDATA: Os então responsáveis pelo setor de informática da empresa de aerolevantamento AeroSul criaram, em meados dos anos 1980, um sistema para automatização de processos cartográficos. Posteriormente, constituíram empresa MaxiDATA e lançaram o MaxiCAD, software largamente utilizado no Brasil,principalmente em aplicações de Mapeamento por Computador. Posteriormente, o produto dbMapa permitiu a junção de bancos de dados relacionais a arquivos gráficos MaxiCAD, produzindo uma solução para "desktop mapping" para aplicações cadastrais.
  • CPqD/TELEBRÁS: O Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da TELEBRÁS iniciou, em 1990, o desenvolvimento do SAGRE (Sistema Automatizado de Gerência da Rede Externa), uma extensiva aplicação de Geoprocessamento no setor de telefonia. Construído com base num ambiente de um SIG (VISION) com um banco de dados cliente-servidor (ORACLE), o SAGRE envolve um significativo desenvolvimento e personalização de software.
  • INPE: Em 1984, o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) estabeleceu um grupo específico para o desenvolvimento de tecnologia de geoprocessamento e sensoriamento remoto (a Divisão de Processamento de Imagens - DPI). De 1984 a 1990 a DPI desenvolveu o SITIM (Sistema de Tratamento de Imagens) e o SGI (Sistema de Informações Geográficas), para ambiente PC/DOS, e, a partir de 1991, o SPRING (Sistema para Processamento de Informações Geográficas), para ambientes UNIX e MS/Windows.


Durante os anos 1990 o quadro se altera, pois, o Estado retoma seu protagonismo como ordenador do espaço e regulador dos setores que foram privatizados ou concedidos à iniciativa privada. O respeito aos contratos de concessão envolveu, entre outros quesitos regulatórios, a obediência em cumprimentos de metas de cobertura (sobretudo no caso da telefonia) o que implicou na necessidade de uma base cartográfica mais ampla e detalhada, que até o momento era pouco extensa (SOUZA, 2014).
           
Além disso, a universalização dos serviços, tais como educação e saneamento, fez com que a tomada de decisão de aonde investir passasse por um crivo espacial. Neste contexto, o gestor público passou a correr o risco de implantar equipamentos em locais cujos serviços poderiam se sobrepor a outros já instalados em suas mediações. É neste momento que o aparelho de Estado passa a reinvestir na produção de cartografias, mas agora com outra conotação, pois com o avanço das geotecnologias, os entes públicos puderam organizar áreas próprias de produção cartográfica, sobretudo de mapas temáticos e que deveriam servir aos mais diversos fins, muito além do recobrimento cartográfico tradicional (SOUZA, 2014).
           
A retomada do espaço como uma categoria decisiva para a tomada de decisão das políticas públicas acabou por revelar o grande problema representado pela falta de bases cartográficas atualizadas e em formato digital, para que pudessem ser utilizadas nos Sistemas de Informações Geográficas. Quando a iniciativa privada se depara com tal problema, ela resolve tal carência demando produtos cartográficos de empresas, também do setor privado, que se especializaram neste tipo de produto. O Estado sem alternativa, também acaba recorrendo a essas empresas (SOUZA, 2014).
           
Em 1994, o Governo Federal cria a Comissão Nacional de Cartografia (CONCAR). Mantém a estrutura da repre­sentação ministerial tendo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística(IBGE) como provedor de apoio administrativo, e e a Associação Nacional de Empresas de Aerolevantamento (ANEA) como um dos principais membros. A CONCAR fica subordinada ao Ministério do Planejamento e Orçamento, como ocorre até hoje, sendo a principal instituição a discutir e planejar o uso de geotecnologias no Governo Federal.
           
Outro passo histórico importante nessa trajetória foi a criação da TerraLib, que é uma biblioteca computacional de código aberto para suportar aplicações inovadoras em Geoprocessamento. Foi desenvolvida em 2000 pelo INPE e expandiu a capacidade nacional de desenvolvimento de SIG. Ela tinha por meta permitir o desenvolvimento de ambientes SIG que incorporavam os mais recentes avanços da Ciência da Geoinformação, com ênfase no uso de SGBD para armazenar todos os tipos de dados geográficos (CÂMARA et al., 2002). Atualmente, o Centro de Estudos da Metrópole (CEM) e o Ministério das Cidades são dois dos principais usuários de sistemas derivados da TerraLib, como o SIG TerraView.
          
Em 2001 ocorreu retomada dos trabalhos da Comissão Nacional de Cartografia (CONCAR) com a elaboração do Plano Cartográfico Nacional, integrando os planos do IBGE e da Diretoria do Serviço Geográfico do Exército Brasileiro (DSG).
           
Entre os anos 1990 e 2000 a construção das chamadas Infraestruturas de Dados Espaciais(IDE's) vem sendo considerada uma ação essencial de boa governança, tanto pelo Estado quanto pela sociedade, em diversos países, conforme a pesquisa de Onsrud (2001). No Brasil, o Decreto no 6.666, de 27/11/2008 institui a INDE e a define como o conjunto integrado de tecnologias; políticas; mecanismos e procedimentos de coordenação e monitoramento; padrões e acordos, necessário para facilitar e ordenar a geração, o armazenamento, o acesso, o compartilhamento, a disseminação e o uso dos dados geoespaciais de origem federal, estadual, distrital e municipal (CONCAR, 2010).
            
Masser (2002) aponta o seguinte conjunto de motivações para a implementação de uma IDE:        

  •  A importância crescente da informação geográfica dentro da sociedade de informação; 
  • A necessidade de os governos coordenarem a aquisição e oferta de dados;        
  •  A necessidade de planejamento para o desenvolvimento social, ambiental e econômico, sendo que a informação geográfica é crucial para promover desenvolvimento econômico, melhorar nosso monitoramento de recursos e proteger o meio ambiente”;  
  •  A modernização do governo, em todos os níveis de gestão e desenvolvimento (aquisição produção, análise e disseminação de dados e informações).
           
Existem diversas partes envolvidas e interessadas na INDE, assim como no uso de geotecnologias pelo Governo Federal, como o setor público e privado que respondem pela aquisição, produção, manutenção e oferta de dados espaciais; o setor acadêmico que é responsável pela educação, capacitação, treinamento e pesquisa; e o usuário que determina que dados espaciais são requeridos e como devem ser acessados (WILLIAMSON et al., 2003).

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