quinta-feira, 4 de agosto de 2016

O Momento do Gerenciamento de Decisões de Negócio

O Gerenciamento de Decisões de Negócio é uma disciplina relativamente nova no cenário das disciplinas de gestão empresarial, se comparada com disciplinas como o Gerenciamento de Processos, que remonta ao início do Século 20, ou o Gerenciamento de Dados, que tem suas origens nos idos de 1950. Podemos viajar ao passado não mais que ao final dos anos 1990, quando o Business Rules Group publicou um trabalho seminal no campo do estudo das regras de negócio que regem o comportamento das organizações[1]. Trabalhos contemporâneos de Ronald Ross[2] e Barbara von Halle[3] impulsionaram o surgimento de toda uma nova disciplina, o Gerenciamento de Regras de Negócio, que rapidamente ganhou a aceitação e a adesão do mercado. Inúmeras iniciativas de transformação e desenvolvimento de sistemas passaram a usar os novos conceitos, que se surfou em uma onda crescente de adeptos e praticantes ao longo dos anos 2000. Mas, o que, exatamente, propunham estes desbravadores?

O trabalho do BRG justifica a necessidade de uma nova disciplina para a descrição das regras de negócio que estruturam e orientam as operações das empresas mostrando que, ao longo dos anos, as técnicas de desenvolvimento de sistemas evoluíram para descrever, de forma precisa, vários aspectos das organizações, principalmente seus fluxos de atividades (processos), de informações (dados) e suas estruturas organizacionais. De alguma forma, o conceito de 'regras de negócio' está implícito em todas estas disciplinas, mas de fato o importante aspecto da lógica que rege as organizações permanecia não coberto. Foote e Yoder[4] descrevem, em 1999, aquilo que seria um dos modelos de arquitetura de sistemas mais prevalentes, apesar dos constantes esforços empregados para sua eliminação, que eles chamam "grande bola de lama" (The Big Ball of Mud), ou como é mais comumente conhecido, o 'código espaguete'. Ken Orr[5], em um excelente trabalho sobre a aplicação dos conceitos de Arquitetura Orientada para Serviços (SOA-Service Oriented Architecture), descreve como esta 'bola de lama' poderia ser desfeita através da separação das diversas dimensões dos sistemas em áreas de preocupação separadas, em uma Arquitetura de Aplicativos Baseada em Componentes.

Em 2009, no entanto, Larry Goldberg e Barbara von Halle, no livro "The Decision Model: A Business Logic Framework Linking Business and Technology"[6], afirmam:
"Embora seja verdade que muito progresso tenha sido feito para atacar os distintos aspectos enterrados na 'grande bola de lama', não tem havido muito sucesso na separação da lógica de negócios, de forma que ela possa ser desenvolvida e modificada de forma independente. Ironicamente, a lógica de negócios está exatamente no coração dos sistemas de negócio automatizados."
O mesmo Ken Orr, no prefácio deste livro, afirma:
"De fato, as regras de negócio são, talvez, o mais importante e não resolvido problema enfrentado pelo negócio e pela TI. Um grande número de organizações não são mestres de suas regras de negócio, mas prisioneiras delas"
A partir destas constatações, estes autores desenvolvem toda uma nova abordagem para o gerenciamento das regras de negócio que estruturam e orientam as operações das organizações, que denominam The Decision Model. Nas palavras dos autores:
"O Modelo de Decisão (TDM - The Decision Model) traz para o mundo das regras de negócio uma estrutura bem definida, baseada na natureza intrínseca da lógica, estendida com princípios de integridade e normalização ..... Capturar a lógica de negócios, desde as condições até as conclusões e refiná-la até que seja atômica, precisa, inequívoca, e alinhada com os objetivos de negócio, é o que o constitui o Modelo de Decisão e os seus princípios."
O TDM logo encontrou seu caminho em grandes empresas financeiras, seguradoras e casas hipotecárias nos EUA, no rastro da grande crise financeira de 2008, e atraiu a atenção imediata do OMG (Object Management Group), que em 2010 formou um grupo de trabalho encarregado de definir um novo padrão para a descrição da lógica de decisões dos negócios, chamado DMN - Decision Model and Notation, com os seguintes objetivos:
  • Fornecer uma estrutura padrão para tipos de modelo de decisão
  • Fornecer uma notação padrão para modelos de decisão, tabelas de decisão e, potencialmente, outras metáforas, em conjunto com semântica padronizada independente de tecnologia
  • Fornecer notações comuns para as decisões em modelos de processos de negócio (i.e., BPMN)
  • Fornecer permutabilidade para modelos e tabelas de decisão entre ferramentas de modelagem.
O longo e importante trabalho deste grupo tem seu primeiro resultado em 2015, com a publicação da versão 1.0 do padrão, seguido de uma versão 1.1 de revisão em Junho de 2016[7] (os trabalhos de desenvolvimento do DMN 1.2 já começaram). Com uma rapidez digna de nota, diversos fabricantes de ferramentas BPMN já estão lançando as primeiras versões de seus produtos compatíveis com o DMN. Bruce Silver, uma das maiores autoridades mundiais em modelagem de processos, afirmou em uma recente palestra[8]:
"O padrão DMN permite que as pessoas de negócio definam e mantenham, por si mesmas, a lógica das decisões que orientam as operações críticas da organização, em contraste com a prática tradicional onde elas estão limitadas a escrever requisitos para programadores que não têm conhecimento direto do negócio."
Mas como se parece um modelo de decisão de acordo com o padrão DMN? Sem querer esgotar o assunto, gostaria de oferecer uma breve introdução ao padrão.

 

O Padrão DMN - Decision Model and Notation


O padrão DMN objetiva unificar a modelagem e a execução da lógica de negócios, fazendo pelo Gerenciamento de Decisões o que o BPMN fez pelo Gerenciamento de Processos nos últimos anos: colocar a disciplina diretamente no centro das estratégias de transformação empresarial, revolucionando a forma como as organizações encaram os desafios da sobrevivência e sucesso em um mundo em constante mudança, e cada vez mais digital. Assim como o BPMN, o DMN pretende ser uma linguagem para ser utilizada por analistas de negócio e pelo pessoal do negócio, não por programadores.

O DMN foi concebido para ser capaz de representar a lógica de negócios independentemente de sua implementação real (manual, semi-automatizada, ou completamente automatizada). Além disso, através de definição de uma linguagem própria de expressão da lógica de negócios, o DMN pretende que modelos de decisão DMN possam ser executados em qualquer motor de regras compatível com o padrão, na prática tornando a modelagem de decisões de negócio completamente independente dos detalhes relativos à sua implementação.

O conceito principal do DMN é a "decisão", definida como:
Um valor de saída resultante da aplicação de uma lógica de decisão a um conjunto de valores de entrada.
A lógica de decisão possui diversas formas de expressão, sendo a mais comum o uso de "tabelas de decisão", estruturas tabulares bidimensionais que representam as variáveis de entrada, as (possivelmente várias) variáveis de saída, e as regras de negócio que determinam as saídas corretas a partir dos dados de entrada.

O DMN possui cinco elementos principais:
  1. o DRD - Decision Requirements Diagram (Diagrama de Requisitos de Decisão)
  2. Tabelas de Decisão
  3. a linguagem de expressão FEEL-Friendly Enough Expression Language
  4. expressões "encaixotadas" (Boxed Expressions), uma representação visual de lógica de decisão complexa
  5. um metamodelo e um esquema XML
Nem todas as ferramentas suportam, hoje, todos estes elementos do padrão e, eventualmente, muitas jamais o farão. O próprio DMN prescreve três níveis de aderência ao padrão que as ferramentas podem objetivar, quais sejam:
  • Nível 1 - somente modelagem do DRD
  • Nível 2 - modelagem do DRD, tabelas de decisão e a linguagem S-FEEL (um subconjunto da linguagem FEEL)
  • Nível 3 - todos os elementos do padrão
No momento em que escrevo esta postagem, praticamente todas as ferramentas disponíveis atendem o Nível 1, algumas estão caminhando para a compatibilidade com o Nível 2, e algumas poucas começam a mostrar alguma compatibilidade com o Nível 3. Considerando quão recente é o padrão, este é um processo normal, e ao longo dos próximos meses veremos o lançamento de diversas novas ferramentas, e novas versões das ferramentas existentes, oferecendo um suporte cada vez mais completo e consistente com o padrão.

 

Elementos de um DRD


O Diagrama de Requisitos de Decisão - DRD é suportado por todas as ferramentas de modelagem DMN. Ele fornece uma representação visual amigável das dependências de alto nível das decisões de negócio em relação às informações e outras decisões de suporte. É uma notação bastante simplificada: retângulos representam "decisões", elipses representam "dados de entrada", "relatórios" representam as "fontes de conhecimento" para a lógica de negócios, e retângulos aparados representam "conhecimento de negócio" reutilizável (em geral, partes de lógica de negócio que são reutilizadas em diversas decisões). Abaixo um exemplo de DRD, extraído do padrão DMN v1.1:


Decisões podem depender de outras decisões (de suporte), formando uma rede inferencial de decisões individuais que levam à decisão final:


Uma decisão em um DRD pode ser associada a uma atividade de decisão (regra de negócio) em um modelo de processo BPMN, como mostrado no exemplo abaixo:


A figura acima mostra, também que uma Tabela de Decisão pode ser associada a uma Fonte de Conhecimento (ou diretamente a uma Decisão), especificando a lógica (regras de negócio) que efetivamente governam a decisão. Digno de nota, também, é que, embora intimamente ligada aos processos, uma decisão não é dependente de um processo para sua existência. Isto significa que decisões podem ser identificadas, elaboradas, modeladas e gerenciadas como um ativo independente, com seu próprio ciclo de vida e estrutura de governança completamente independente dos processos que (eventualmente) venham a utilizar esta decisão. Esta é uma característica importante para as organizações, pois, pela primeira vez, é possível tratar a lógica de negócios como um ativo real de negócio, com sua (enorme) importância e valor para a empresa.

Um exemplo completo de DRD (também extraído do padrão) para uma decisão de originação de empréstimo é mostrado abaixo:

O Estado Atual da Modelagem do Gerenciamento e Modelagem de Decisões

Ao longo dos últimos anos, centenas de empresas ao redor do mundo, muitas delas líderes em seus setores, tanto no setor privado como no setor público, adotaram o gerenciamento e a modelagem de decisões como parte de sua estratégia de transformação digital e de reinvenção do seu modelo de negócios, em busca da agilidade necessária para sobreviver no mercado atual desafiador e em constante mudança, com a pressão constante por mais agilidade, eficiência no consumo de recursos, governança e transparência.

O Gerenciamento e Modelagem de Decisões se mostrou uma ferramenta inestimável para a melhoria da agilidade, governança e transparência das organizações. Ao colocar explícita a lógica de negócios que governa as operações da organização, modelos de decisão se tornam um poderoso aliado para a captura da inteligência de negócios que a diferencia, para o gerenciamento, controle e auditoria de suas decisões de negócio, para a redução de multas e processos por não cumprimento de legislação e regulamentos, e para a redução de decisões errôneas (intencionais ou não) e temerárias dos seus colaboradores.

Modeladores de decisões experientes estão encorajados pelo fato de que um padrão aberto reconhecido está emergindo, juntamente com uma oferta crescente de ferramentas e serviços correlatos. Considere os numerosos benefícios de um padrão de gerenciamento de decisões de negócio:

  • o padrão DMN torna a nova disciplina do gerenciamento e modelagem de decisões mais legítima para as comunidades de gerenciamento de processos e de TI, o que solidifica fortemente a parceria entre o negócio e estas áreas de uma forma nunca antes possível.
  • melhor e maior oferta de ferramentas de software para o gerenciamento do ciclo de vida das decisões, sua modelagem e execução, com transferência facilitada de modelos entre as diversas ferramentas, aumento da competência dos profissionais, e maior retorno sobre o investimento para as empresas.
  • visibilidade tangível de um ativo de negócios antes invisível e não administrável: a lógica de negócios que representa o verdadeiro diferencial competitivo da organização.
  • a possibilidade de modelagem e gerenciamento de todos os tipos de decisões de negócio, manuais ou automatizadas, em todos os campos do conhecimento e em todas as esferas de responsabilidade.
  • o início de uma nova era de modelos de decisão vivos, instrumentos da mudança organizacional e de ciclos de mudança cada vez mais rápidos.

Este é o estado atual do Gerenciamento e Modelagem de Decisões nas economias e empresas mais avançadas ao redor do mundo. No Brasil, este assunto ainda engatinha, e apenas algumas poucas empresas visionárias começam a se interessar pelo assunto. No entanto, considerando a evolução do nosso mercado, que também caminha cada vez mais rápido para a economia digital e para a oferta de serviços digitais abrangentes, é de se esperar que o assunto atrairá cada vez mais atenção e, em breve, estará nas agendas das organizações brasileiras privadas e públicas.

No caso do Governo Brasileiro, iniciativas como a Lei da Transparência, a Estratégia de Governo Digital, o Framework de Arquitetura Corporativa e Padrões de Interoperabilidade (FACIN), o Portal do Cidadão, e outras, levarão, sem dúvida, à inclusão deste tema na pauta de todos os projetos de melhoria de serviços ao cidadão e de aumento da eficiência do Estado. Um exemplo dos benefícios da aplicação do Gerenciamento e Modelagem de Decisões no Governo Americano (e por que não, no Governo Brasileiro) pode ser visto neste artigo.

A hora do Gerenciamento e Modelagem de Decisões de Negócio é agora...

Referências:
1. Defining Business Rules - What Are They Really?  The Business Rules Group, 2000
2. Business Rule Concepts: Getting to the Point of Knowledge, 1a edição, Ross, Ronald G., 1998
3. Business Rules Applied: Building Better Systems Using the Business Rules Approach, 1a edição, von Halle, Barbara, 2001
4. Big Ball of Mud, Foote, Brian e Yoder, Joseph, Fourth Conference on Patterns Languages of Programs, 1999
5. Putting Data into SOA: Data Virtualization, Data Buses, and Enterprise Data Management, Orr, Ken, Cutter Business Technology Council, 2007
6. The Decision Model: A Business Logic Framework Linking Business and Technology, Goldberg, Larry e von Halle, Barbara, 2009
7. Decision Model and Notation, versão 1.1, OMG, 2016
8. DMN as a Decision Modeling Language, Silver, Bruce, palestra no RuleML/DecisionCamp em Julho de 2016

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