quarta-feira, 27 de abril de 2016

Nas nuvens...

Há pouco mais de um mês eu participei de um evento que tinha como celebridade o indiano Sugata Mitra, físico de formação e brilhante educador contemporâneo. Sugata começou a se ocupar de questões relacionadas à aprendizagem das pessoas quando trabalhava com programação de dados em Nova Déli e via, desolado, uma grande favela do outro lado do muro de sua empresa.

Um dia, teve a grande sacada: furar a parede e instalar um computador com acesso à Internet para que as crianças carentes pudessem navegar à vontade. Detalhe: nenhum professor ou orientação foram dados aos jovens que, com sua curiosidade inata, começaram a mexer no mouse (que eles não sabiam o que era nem para que servia) e a realizar downloads e explorações na web.


O interessante da história é que Sugata começou a observar que as crianças se auto-organizavam para aprender conteúdos diversos, obtendo conhecimentos em níveis superiores aos de outras matriculadas em escolas particulares da Índia. Empolgado com os resultados, Mitra estendeu seus estudos a regiões ainda mais carentes do país, sempre obtendo respostas positivas e surpreendentes.

O projeto ganhou o prêmio de R$ 1 milhão de dólares do TED (o TED Prize 2013) e hoje em dia gerou "filhos" como as "as escolas nas nuvens", "as nuvens de avós" e os "SOLE" - self-organized learning enviroment, ambientes auto-organizados de aprendizagem. É nesse ponto que vejo uma enorme correlação do que Sugata faz com nosso mundo de processos e serviços: sua crítica ao modelo corrente de ensino e aprendizagem pode ser completamente replicado no mundo dos processos. Segundo Mitra, ainda teimamos em ver o mundo como uma sequência de atividades e tarefas com comando e controle garantindo a ordem - e ele diz que tal modelo foi muito eficiente na época dos grandes impérios, que precisavam garantir uma comunicação rápida e a efetiva tomada de decisão em um mundo pré-computador (Sugata chega a dizer que as pessoas é que acabavam fazendo o papel de componentes desses arranjos proto-computacionais, programadas para exercer poucas e repetitivas funções e a sobreviver em ambientes hostis). Porém, nos dias de hoje, não faz qualquer sentido mantermos tal paradigma e não reconhecermos o potencial que os seres humanos possuem e o poder da comunicação e da resolução de questões em redes de cooperação - os modernos processos.

Sugata diz que nesses quase vinte anos de experimentos ele sempre tentou incorporar algum aspecto que negasse suas descobertas - mas, felizmente, ainda não conseguiu. Uma história deliciosa que ouvi dele foi a de uma criança de oito anos que, depois de alguns meses trabalhando sem sucesso com seu grupo no aprendizado de biologia molecular (em uma experimento SOLE e exposta a um conteúdo reconhecidamente mais avançado que sua capacidade), virou-se para ele e declarou:

- Até agora não aprendi coisa alguma de biologia molecular - à exceção do fato de que mutações nos filamentos do DNA provocam o surgimento de doenças degenerativas que não possuem tratamentos totalmente comprovados pela medicina contemporânea e...

Ela acabara de provar a força dos argumentos de Sugata.

* Veja sua fala "O Futuro da Aprendizagem" no TED 2013 e se seu trabalho e/ou seus processos também sofrem dos mesmos sintomas (https://youtu.be/Sw71Zrw0i3I).

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