quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Tirando o paletó da cadeira


Muito se fala da indolência e ineficiência do servidor público, mas poucos se perguntam sobre as reais razões que fazem com que essa realidade se reproduza e gere conseqüências danosas, verificadas na prestação dos serviços públicos de má qualidade e na pífia atuação do Estado no desempenho de suas funções.

Os servidores públicos, muitos egressos da iniciativa privada, ao ingressarem na carreira pública por mais que tenham preconceitos a respeito da Gestão Pública, passaram por um “funil” apertado e estão certamente felizes por terem vencido a batalha do concurso público e, em sua maioria, com um elevado grau de motivação.

Ao receber este novo contingente, o serviço público cumpre sua cartilha burocrática. O conhecimento arrancado de muitas e penosas horas de estudo são praticamente deixados de lado. Rapidamente o servidor é treinado para entrar no molde preestabelecido de sua rotina e a única atitude esperada dos mesmos é a predisposição para receber essas informações e estar rapidamente habilitado para reproduzir aquilo que a rígida hierarquia estará pronta e treinada para cobrar.

A maior parte deste capital humano, colhido da sociedade através de rigorosos concursos públicos e que deveria ser considerado o maior e melhor ativo do serviço público é, desta forma, sistematicamente desperdiçado.

Muitos certamente se debatem contra essa estrutura embrutecedora. Muitos, por esta mesma razão, são perseguidos e “controlados”, pois o rígido aparato foi idealizado para reprimir qualquer movimento que ponha em risco a estrutura burocrática construída em tijolos pré-moldados e cimentados pelos manuais, normas, atos, portarias etc.

Dependendo de seu grau de resistência, o servidor estará, em pouco tempo, institucionalizado e sem qualquer motivação. Cooptado por uma carreira estável e por um nível salarial aceitável, deixa suas ambições profissionais e intelectuais de lado, quando muito se dedicando a um hobby ou uma atividade paralela que dê vazão a toda energia e criatividade perdida no local de trabalho.

Estamos vivendo em momento de grandes e rápidas mudanças na ordem econômica, social, cultural, ecológica. Estamos no limite tributário e fiscal. Neste contexto, o Estado não pode mais se dar ao luxo de não transformar esse ativo intelectual em valor para o sociedade.

Existem muitas propostas sendo desenvolvidas e até sendo implantadas para reverter tal situação. Abaixo exemplos de políticas de Gestão de Pessoas:
  •       Diminuição de níveis hierárquicos, capacitando os servidores para emergirem menos chefes controladores e mais líderes facilitadores e gestores de ambientes de negociação e mediação;
  •      Incentivos financeiros e não financeiros, avaliação de desempenho e movimentação na carreira baseados na produtividade, com metas vinculadas a objetivos traçados em um Plano Estratégico elaborado  com a visão do cidadão-cliente (outsidein) e supremacia do interesse público;
  •          Empoderamento do servidor, onde cada um dos atores dos processos de trabalho é estimulado a pensar, usar sua criatividade e decidir, sempre com responsabilidade e transparência;
  •          Meritocracia obrigatória para ocupação dos cargos em comissão, através de concursos internos e avaliação periódica, levando em conta a eficiência e eficácia de cada gestor;
  •       Reconfiguração de controles internos e externos, automatizados e baseados em indicadores de eficiência e eficácia;
  •          Estímulo a construção coletiva de políticas de Gestão de Pessoas, com fóruns intra e intersetorias;
  •          Programas de melhoria contínua dos processos de trabalho;
  •          Programas de Qualidade de Vida no Trabalho.

Essas e outras políticas devem ser discutidas, problematizadas e veiculadas no bojo de um projeto coerente de novo modelo de Governança Corporativa, onde as funções de Estado devam estar sendo desempenhadas em rede, otimizando o uso dos recursos e dos ativos.

Qualquer trabalhador que se sinta parte de uma missão, que veja seu trabalho valorizado e como parte de um todo, que se sinta mais do que uma peça em uma engrenagem misteriosa, num ambiente em que o conhecimento, a confiança e a cooperação sejam valorizados, verá em sua organização um local onde terá chance de se realizar profissionalmente e, porque não, ser feliz.

A figura folclórica do carimbador de papel que coloca o paletó na cadeira e sai para “voar” é uma realidade parcial e uma excrescência de um modelo falido. O contingente de servidores públicos que trabalham duro, que inovam e querem ver uma Gestão Pública de qualidade é grande e cresce todos os dias. Esse movimento já está em curso e cada um dos atores (gestores, servidores, sociedade civil) é responsável por sua materialização.

Até a próxima!




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