segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Bancos de cérebros

De 1999 a 2007 trabalhei em um escritório estratégico de processos e projetos na Caixa Econômica Federal. A chamada Gerência Nacional de Soluções Empresariais foi uma das primeiras unidades no setor público brasileiro com tais características e sua existência resistiu a várias mudanças estruturais e a trocas de comando e das equipes técnicas, contribuindo decisivamente para a melhoria dos resultados organizacionais.

Um de seus instrumentos que mais me fascinavam era o fórum semanal de discussões que realizávamos, impreterivelmente, nas tardes de sextas-feiras. A pauta e a condução dos encontros era de responsabilidade de todos da unidade, não importando sua localização na hierarquia da empresa (sabíamos que os eventos ocorreriam ainda que os gerentes do escritório tivessem outros compromissos, pois os fóruns não eram de propriedade de indivíduos, mas do coletivo).

Mesmo já estando afastado da unidade há algum tempo, creio que os fóruns duraram mais de uma década e poucos colegas do time original participaram de todas as edições, o que prova que a cultura de uma prática bem-sucedida foi mais forte que nossos caminhos pessoais.

Estou lendo o livro "Criatividade S.A. - superando as forças invisíveis que ficam no caminho da verdadeira inspiração", de Ed Catmull, um dos presidentes do estúdio de animação Disney / Pixar, e no capítulo 5 da obra uma prática similar é apresentada como um dos grandes trunfos de criação daquela empresa: os chamados "bancos de cérebros".

A Pixar descobriu com a prática, que todos os seus filmes, no início do processo de desenvolvimento, "são uma droga", o que abre espaço para que ninguém fique na defensiva ao receber contribuições para melhorar o produto final.

Parece óbvio que uma organização que lida com criatividade como foco principal precisa inovar constantemente e, ao mesmo tempo, agradar seus clientes - senão, como pensar em um desenho animado a ser distribuído em escala mundial, para culturas diferentes, fazendo sucesso universal e ainda sendo alicerce de um conjunto de outros negócios como parques temáticos e produtos associados? Os bancos de cérebros são reuniões entre os criadores de uma obra (diretor e roteirista, por exemplo) e outros competentes profissionais, também ligados à criação, que podem e devem dar palpites com o objetivo de aprimorar o filme e torná-lo mais imune a riscos.

A ideia é simples mas sua execução depende de algumas premissas inegociáveis. A primeira delas já foi mencionada no parágrafo anterior - é preciso juntar pessoas inteligentes e apaixonadas, com competência para criar e vontade de se expressar, não importando se é a moça do cafezinho ou o vice-presidente da empresa (conta-se que o próprio Steve Jobs, sócio da Pixar, nunca participou de uma reuniões dessas, por não se achar capaz de contribuir com criação de animações). A segunda premissa, no entanto, talvez seja a mais importante de todas: é preciso haver sinceridade na comunicação. Deixando os egos do lado de fora da sala, todos que participam de um banco de cérebros se enxergam como co-responsáveis pela solução que é buscada, nunca deixando que ideias individuais se sobreponham aos objetivos comuns ou que divergências em relação a determinados pontos sejam vistas como questões pessoais. Catmull diz que é um ambiente de muito amor - apesar do volume das acaloradas discussões poder sugerir o contrário. A terceira característica marcante de um banco de cérebros é a orientação de buscar soluções para questões identificadas.

Os bancos tornam-se um lugar seguro (quem escuta prepara-se para abrir mão de ideias que pareçam não funcionar, e quem sugere não busca receber crédito pelo palpite ou agradar seus superiores) e não há prescrição quanto ao que foi debatido - a última palavra ainda cabe ao responsável pelo projeto.

Porém, como há confiança nos competentes pares escolhidos e como, segundo o ditado, "nós somos melhores que eu", a roda criativa gira constantemente e dá bons frutos.

Um comentário :

  1. Adorei o texto e essa ideia que é simples mas acredito que a dificuldade está na simplicidade. Paixâo + competencia + comunicação com sinceridade.

    ResponderExcluir