segunda-feira, 18 de maio de 2015

Improvisos

Havia um projeto patrocinado pela CAIXA em que o genial Arthur Moreira Lima levava seu piano em um caminhão a várias cidades brasileiras e, uma vez chegando em uma delas, fazia memoráveis apresentações que misturavam música erudita e popular, entremeadas por "casos" contados pelo artista. Em uma daquelas paradas, na Esplanada dos Ministérios, ouvi sua explicação muito legal a respeito da popularidade do que hoje imaginamos ser inacessível à maioria das pessoas:
- A chamada música erudita era uma forma popular que os artistas encontravam para traduzir para o gosto das plateias europeias a multiplicidade de sons e culturas que passavam pelas cidades mercadoras. Foi, talvez, a primeira iniciativa de "world music" observada na História.
Em linguagem de processos: adaptação das condições aos contextos é fundamental para a comunicação e para o respectivo alcance dos resultados - os sons árabes que passavam por Veneza, por exemplo, podiam soar muito estranhos aos ouvidos dos moradores, mas quando adaptados por um músico conhecedor dos gostos locais, tornava-se agradável.

Outras duas histórias que Arthur contou, essas já no show de lançamento de seu CD interpretando o craque do tango argentino, Astor Piazzolla. A primeira:
- Piazzola foi um inventor brilhante do tango e cultivava grande gosto pela inovação - mas também reconhecia a importância do estudo das escalas e modos, de forma que coração e mente passassem a sentir a liberdade do improviso. Uma das frases que ele mais gostava de usar era a de que "os melhores improvisos são trazidos de casa"...
Quando começamos a viver os resultados dos nossos processos antes mesmo deles existirem e até nos permitimos imaginar condições que podem ocorrer e as respectivas ações a tomarmos, começamos a enxergar com intensidade a realidade desejada e ficamos mais aptos a improvisar com segurança.
A outra história:
- Ensaiávamos para uma apresentação desde as primeiras horas da manhã e, chegando perto da hora do almoço, Piazzolla convidou-nos a comer em uma churrascaria que ele dizia ser excelente. Invadimos à tarde e batalhamos contra a fome, pensando na maravilha das carnes que saborearíamos. O local ficava afastado do centro da cidade e lá chegamos perto da quatro da tarde. Para nosso azar, uma tabuleta na entrada afirmava: 'Estamos fechados para reforma - reabriremos em três meses'. Ante a nossa frustração, Astor foi rápido e se saiu com essa: 'E então, que tal esperarmos? Garanto que vale a pena...' 

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