terça-feira, 31 de março de 2015

Um quadro na parede

Semana passada assisti a um vídeo na Internet, retirado de uma animada mesa-redonda de um programa de esportes. Como não peguei o início da conversa, não sei o motivo do comentarista contar a seguinte história (talvez não com essas exatas palavras):


"Tivemos uma colega que trabalhou conosco na redação de uma revista semanal que, milagrosamente, escapou de um trágico naufrágio no mar. Depois da embarcação virar, ela conseguiu se agarrar a uma prancha de madeira - provavelmente, um destroço do iate - e ficou horas à deriva no oceano frio e escuro até que fosse avistada por uma equipe de resgate. Em estado de hipotermia e em choque, recebeu ainda no cais os primeiros socorros, teve o corpo aquecido, a circulação sanguínea regularizada e aguardou até a liberação médica. Acompanhou todo o corre-corre das pessoas que buscavam informações de desaparecidos no acidente e ficou solidária às preocupações de amigos e familiares que estavam no local.



Finalmente, após horas de confusão, dirigiu-se ao estacionamento para buscar seu carro e seguir para casa. Na saída do local, encontrou a cancela fechada e o vigia, de dentro da guarita, exclamou com preguiça e má-vontade:



- Ei, dona, cadê o tíquete do estacionamento? A senhora me desculpe, mas sem o bilhete não posso liberar sua saída..."



A situação anterior demonstra a distorção que ocorre quando nossas representações de processos desconsideram o contexto em que estão inseridas. Muito provavelmente a regra "apresente o bilhete do estacionamento ou pague a multa correspondente à sua perda" seja aplicável - e razoável - para 95% dos casos que os empregados da empresa de vigilância se deparam no dia-a-dia. Porém... e quando ocorrem as exceções?



Pior: e se, no limite, cada caso for um caso específico?



Outra história que recordei agora foi a de um vice-presidente da empresa em que eu trabalhava, que me chamou para uma reunião em sua sala e exibiu, orgulhoso, um longo mapa de processo impresso em plotter colorida, que ele havia emoldurado e pendurado atrás de sua mesa de trabalho:



- E então, não lhe parece magnífico? Olho todos os dias para o mapa e faço meus empregados seguirem à risca o que está aqui registrado.



Olhando aquele quadro e imaginando a velocidade com que as coisas mudam e as possíveis variações contextuais envolvidas, foi impossível não pensar nos versos de Drummond:

"Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói!"

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