segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Tudo bem?

Em “Ladrões de Sabonete” o diretor e ator italiano Maurizio Nichetti faz uma homenagem a um clássico do cinema neo-realista, “Ladrões de Bicicleta”, de Vittorio De Sica. Usando atores amadores – o que conferiu maior empatia junto ao público -, o filme de 1948 retrata a difícil vida do protagonista que depende da bicicleta para o seu sustento e a tem roubada. Foi premiado com o Oscar de filme estrangeiro.
A comédia de Nichetti foi filmada mais de quarenta anos depois e a trama se desenvolve em torno da exibição de um filme inspirado no original de De Sica durante a programação noturna da TV. Como ocorre no modelo comercial de televisão, a toda hora a transmissão é interrompida por comerciais ou pelos comentários do diretor, vivido pelo próprio Maurizio.
Em determinado momento, uma pane na geração do sinal faz com que a protagonista do filme troque de lugar (e de tempo) com uma bela modelo que faz um anúncio de sabonete. A confusão gerada leva o diretor a invadir o enredo e tentar recolocar as coisas em seus devidos lugares.
Uma cena curiosa se dá quando Nichetti encontra o filho dos atores principais do drama e tenta convencê-lo a voltar ao fio da história, dizendo algo como:
– Você precisa fazer isso, pois assim seu pai sofrerá um acidente, perderá o movimento das pernas, não terá mais o emprego, sua mãe será obrigada a se prostituir e você irá para um orfanato – ou seja, tudo ficará bem.
Claro que o menino não aceita a oferta – e em um momento posterior do filme, se vinga do diretor quando ele vai preso, exclamando: – Agora você é quem vai ficar encarcerado!
Lembrei-me dessa história por um motivo básico, a necessidade que os processos de trabalho deixem explícitos para os envolvidos o que é “tudo ficar bem”. O ponto de vista do diretor (seu filme correndo como o esperado) é nitidamente conflitante com a noção de conformidade do personagem – para quem uma vida de aperto não dá qualquer sinal de ser algo bom. Quando nos obrigamos a tornar explícitos os valores de cada participante do processo e/ou quando usamos mecanismos como as cartas de serviço / cartas-compromisso, rapidamente percebemos se há congruência ou divergência entre os anseios presentes – e podemos atuar para garantir o resultado pretendido.
Outra questão marcante é, novamente, a falsa ideia de que o único caminho para alcançarmos nossos objetivos é formado de sangue, suor e lágrimas até que o sucesso chegue. Não há nada de mal em buscarmos alternativas mais tranquilas, prazerosas e inclusivas para que o trabalho realizado traga frutos mais rápidos e saborosos a quem dele toma parte.
Como em um belo filme de cinema.

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