segunda-feira, 19 de junho de 2017

A Internet das Coisas e os Processos de Negócios

Com certeza você já ouviu falar em IOT, a sigla de Internet of Things ou Internet das Coisas. E provavelmente já viu notícias divulgando eventos sobre o assunto, assim como iniciativas e planos de governos promovendo essa nova onda. Mas provavelmente não sabe bem como essas “coisas” vão afetar você ou seu trabalho. E nisso, com certeza, você não está só.

Neste post falo da IOT na perspectiva dos processos de negócios, focando nos impactos nos modelos e processos de negócio das organizações. Afinal, espera-se que a IOT possibilite às organizações aumentar sua flexibilidade, eficiência e agilidade, o que, sem dúvida, não acontecerá sem muitas mudanças.

Provavelmente você já sabe que a IOT é uma rede de objetos interconectados através de uma rede IP. Mas qual a novidade nisso? Já faz muito tempo que você usa diariamente computadores, tablets e celulares interconectados em redes IP. A diferença, é que esses objetos têm como função o processamento e a comunicação de informações, mas não interagem diretamente com o mundo físico. Na IOT, os objetos conectados interagem com o ambiente físico, seja como sensores que capturam informações do ambiente, seja como atuadores que alteram variáveis desse mesmo ambiente.  

A IOT não é um projeto de uma possível rede futura, já existem muitas aplicações dela, mesmo que ainda de forma restrita e abrangência limitada. Como já disse o escritor William Gibson “… o futuro já chegou, apenas ainda não está bem distribuído”. Estima-se que existam mais de 6 bilhões de dispositivos conectados em 2016, e de que até 2020 eles serão mais de 20 bilhões. Aplicações residenciais com luminárias, sistemas de alarme, termostatos e aspiradores conectados existem já faz algum tempo, sem falar em serviços com o Waze que transformam seu smartphone em um dispositivo IOT. Mas o maior impacto econômico provavelmente acontecerá nas interações de negócio entre organizações, e não é por menos que ela é um dos principais componentes de iniciativas como a Indústria 4.0 ou Internet Industrial, que buscam promover a digitalização das organizações e processos industriais.

Independentemente do mercado de consumo ou industrial, o uso de IOT implica no processamento de grande volume de dados gerados pelos dispositivos. Mas, o valor real não está nos dados em si mas no que pode ser feito com eles. É necessário transformá-los em informações que levem a ações (actionable). Sem isso, os dados significarão apenas mais custo para a organização em vez de uma vantagem competitiva. E para alcançar seu potencial de valor os dados da IOT devem estar conectados com os processos e regras de negócio. Por exemplo, quando todos os envolvidos em um processo logístico podem se comunicar continuamente é possível maximizar a realização das entregas e, ao mesmo tempo, minimizar custos e prazos. Mas apenas a comunicação e intercambio de dados não será suficiente se não existir inteligência para otimizar os agendamentos e a alocação de recursos, e os resultados poderão ser ineficazes se não forem atendidas as definições dos processos e regras de negócio.

A diversidade de dispositivos na rede IOT implica em múltiplas interfaces para interação entre pessoas e “coisas” interconectadas, reduzindo as interações manuais atuais e mudando a forma como os usuários interagem com os sistemas e processos. O uso de dispositivos sensores e atuadores, alavancados por tecnologias de visualização e localização, possibilitam ligar modelos virtuais ao mundo físico, conectando o mundo virtual ao mundo real. Uma classificação simplificada divide os dispositivos conectados em 3 tipos:
  • Simples – dispositivos que recebem dados do ambiente (sensores) e os transmite a outro nó da rede, ou recebem dados da rede para exercer uma ação sobre o ambiente (atuadores). Nos dois casos, o dispositivo simples tem baixa, ou nenhuma, capacidade de processamento e decisão (por exemplo: termômetros, detectores de movimento, chaveadores, etc.);
  • Semi-inteligentes - dispositivos que além de atuar como sensores/atuadores possuem alguma capacidade local para armazenar e processar informação;
  • Inteligentes – dispositivos com capacidade computacional suficiente para processar regras, tomar decisões e interagir com pessoas e máquinas;
É como se dispositivos simples fossem os olhos, ouvidos e mãos da rede, enquanto que os com capacidade computacional correspondem ao cérebro. Mas, diferentemente dos organismos físicos, na rede IOT é possível distribuir capacidade computacional nas pontas, o que significa descentralizar a inteligência. E a medida que cai o custo de embutir capacidade computacional nos dispositivos, mais inteligência pode ser deslocada para as pontas.

Deslocar inteligência na rede possibilita distribuir a coordenação e execução de atividades dos processos, assim como a aplicação de regras de negócios. Em outras palavras, acrescentar inteligência nas pontas implica em capacitar as “coisas” da IOT para atuar como agentes ativos do processo, que podem identificar padrões nos eventos e realizar tomadas de decisão para executar as ações previstas pelos processos e regras de negócios. A IOT deverá ser mais disruptiva para os processos de negócio do que estão sendo os smartphones, que possibilitam que o aplicativo móvel substitua a web como principal ponto de acesso aos sistemas da organização.

A integração de dispositivos inteligentes e conectados nos mais diversos produtos físicos levará a modificações significativas nos processos de negócio, como já sinalizam alguns exemplos:
  • Um hospital utiliza dispositivos médicos conectados (ex.: medidores de pressão, eletrocardiógrafos, monitores de glicose, bombas de insulina,…) para que a equipe médica possa avaliar remotamente os sinais vitais dos pacientes e decidir se devem examinar o paciente pessoalmente ou instruir cuidadores sobre o tratamento mais adequado;
  • A Airbus usa dispositivos laser para projetar imagens na fuselagem de aeronaves para orientar o trabalho de técnicos na linha de montagem. Usando uma combinação de tablet e sensores, os técnicos acessam um modelo 3D com aplicação de realidade aumentada, visualizando o modelo na perspectiva da sua localização no chão de fábrica e complementado com dados atualizados da produção;
  • Na Feira de Hannover, em 2014, a Siemens demonstrou uma linha de montagem real associada com um modelo virtual 3D usado em ambiente de simulação. Sensores na linha de montagem física enviam dados de movimentação que atualizam a simulação em tempo real; 
  • A Indústria 4.0 prevê uso de memória nos produtos industriais, possibilitando armazenar nos produtos dados de configuração, instruções de trabalho e histórico de produção. Produtos “inteligentes” poderão informar diretamente as células de produção sobre o que precisa ser feito;
  • Aplicações de manutenção preditiva para aumentar a eficiência e qualidade operacional, utilizando dispositivos sensores para análise de temperatura, vibrações, som e outras variáveis possibilitam a detecção de problemas antes que eles resultem em falhas nos equipamentos.
Além de dar origem a novos modelos de negócios, a IOT poderá também  promover a renovação de modelos existentes. Um exemplo é a “servitização”, denominação que identifica a tendência de fabricantes de equipamentos passar de fornecedores de bens de capital para fornecedores de serviços. O conceito não é novo, mas ganha folego com a capacidade da IOT que possibilita ao fabricante cobrar o cliente conforme o uso do produto e ofertar serviços adicionais sob demanda. Um equipamento pode ter sua capacidade, ou desempenho, controlada por software, de modo que o fabricante pode oferecer aos clientes opções para aumentar o nível de desempenho por um período determinado. Organizações tradicionais como GE e Rolls-Royce já oferecem turbinas de avião como serviço, cobrando por hora de vôo.

Mas junto ao potencial aumento de receita, agilidade e reduções de custo, a IOT traz uma complexidade inerente ao grande número de pessoas, sistemas e “coisas” que devem ser habilitados a interagir em situações e contextos dinâmicos. Além de mudar a forma de utilizar sistemas e tecnologias existentes é necessário introduzir novos métodos e tecnologias. As soluções de BPMS (Business Process Management Suite) convencionais atuam como controle centralizado que coordena a execução do processo do início ao fim. A introdução de dispositivos IOT no processo de negócio abre a possibilidade de uma atuação mais colaborativa entre os agentes do processo, que podem responder diretamente aos eventos detectados, sem esperar o acionamento pelo BPMS. Ou o BPMS pode combinar regras de negócio com algoritmos analíticos para reconhecer a ocorrência de padrões nos eventos e dados produzidos pelos dispositivos conectados e assim acionar pessoas, sistemas e outros dispositivos para realizar ações no processo.

Além das mudanças nos processos de negócio, a introdução da IOT deverá ser um desafio especial para as áreas de TI e Engenharia/Operações. Gerir centenas ou milhares de dispositivos conectados é um desafio operacional, principalmente quando esses dispositivos estão embutidos em outros equipamentos. A IOT será também um desafio para as divisões convencionais de responsabilidades e atuação entre as áreas de TI e Engenharia/Operações nas organizações industriais. A convenção atualmente mais comum é que a TI é responsável pela infraestrutura de hardware e software ligada aos sistemas de informação da organização, enquanto que a Engenharia/Operações é responsável pela infraestrutura diretamente associada ao processo produtivo. No contexto da IOT, a estrutura gerenciada pela TI está fortemente interconectada com a infraestrutura de produção da Engenharia/Operações, através das máquinas, equipamentos e dispositivos distribuídos nas áreas e linhas de produção. É possível que gradualmente essas áreas sejam unificadas, como já vimos acontecer em operadoras de telecomunicações.

Se você tiver interesse em saber mais, segue uma lista de referências com informações mais detalhadas e melhor apresentadas sobre os assuntos tratados aqui:
E até o próximo post

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