sexta-feira, 29 de julho de 2016

Normas internacionais e a inclusão do setor de TI no mercado global



Lendo hoje (2016-07-29) uma notícia no site do jornal Valor Econômico sobre as dificuldades enfrentadas pela indústria automobilística brasileira (http://www.valor.com.br/empresas/4651721/crise-do-rolima-expoe-dilema-das-montadoras), vi que um dos fatores que contribuem para a amplificação do problema, segundo o entrevistado, é a desindustrialização do setor: faltam esferas de metal ou, para os saudosistas, rolimãs. Resolvi ler o artigo, mais pelo saudosismo de ler rolimãs no título da reportagem, mas me deparei com alguns elementos da análise do entrevistado que me remeteram imediatamente ao isolamento que percebo da indústria brasileira de TI em relação à participação nas discussões das normas internacionais de TI. Muitos elementos do artigo refletem os impactos da falta de capacidade da indústria nacional em suprir sua própria cadeia produtiva, gerando necessidades de importação de peças que, mesmo aparentemente sendo de menor valor, são fundamentais para a produção final daquilo que conhecemos como automóveis. 

Onde ficam as similaridades com nossa recorrente crise de participação da normalização de TI no Brasil? Vamos aqui analisar os pontos que me fizeram deixar para depois o artigo que eu tinha planejado para hoje e me fez reescrever tudo (com o consequente atraso na entrega deste texto, tsc tsc).

O primeiro ponto que me chamou a atenção foi a afirmação de que o Brasil não deve estar preparado para exportar somente para seus vizinhos, mas também para os mercados exigentes de outros continentes. Aqui o paralelo é fácil de fazer: os mercados mais exigentes de importação de produtos e serviços de TI possuem uma série de requisitos de certificações que, normalmente, não encontramos ao pensar somente no nosso mercado nacional ou regional. Já ouvi, repetidas vezes, que “esta norma é muito complexa e não reflete nossa realidade”. Minha reação imediata vem na forma de um suspiro e, depois, na explicação professoral: temos a oportunidade de influenciar grande parte das normas internacionais nas áreas que nos interessam, mas o que precisamos é compreender que esta influência dificilmente pode ser uma atitude de “apagar o fogo”, mas sim uma atitude alinhada com estratégias de negócio, principalmente aquelas que, de alguma forma, consideram a exportação de produtos e serviços como fundamental para a expansão da base de clientes, expansão de faturamento e independência do mercado local, sempre em crise.

O segundo ponto, no meu entender mais significativo, foi a afirmação de que a definição de regras não passa por fechamento de mercado, mencionando o fato de que de nada adianta a postergação das políticas de emissão de poluentes porque isso não ajuda na base de exportação. Aqui o paralelo com a indústria de TI é mais histórico e, para quem não lembra, nossa indústria passou por um tenebroso e destrutivo período de reserva de mercado que em nada ajudou nossa indústria a evoluir. No meu ponto de vista, esta reserva só retardou nossa evolução e nos isolou completamente das grandes discussões do mercado global, além de ter criado uma geração de empresários, cujo único objetivo era conseguir favorecimento nas licitações e impedir a presença de concorrentes.

O terceiro ponto, muito importante em termos de desenvolvimento, é a afirmação de que ficar dentro dos parâmetros mundiais levará as montadoras a, automaticamente, procurar desenvolvimento local. Aqui o paralelo é que, ao fomentarmos uma indústria de TI alinhada com as exigências de qualidade dos mercados globais, a qualidade do fornecimento de produtos e serviços será incrementada, diminuindo a necessidade que grandes produtores têm de procurar peças (na forma de módulos, frameworks e processos) importadas para  construir bons produtos.

No fundo da questão, mora a questão: no que a indústria de TI no Brasil se considera diferente de nossas outras indústrias para que se desconsidere a melhoria, a adoção de boas práticas, a certificação e a globalização como forma de crescimento. É medo de reconhecer que ainda estamos num patamar de maturidade baixo e que nossas ambições são muito pequenas?

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